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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Natal na avó

Fui contrariada. Olhei para a cama da minha vó com seus 5 ou 6 pintchers, a tela de 42 polegadas e me instalei.
Na infância não gostava de ir, embora tentasse com sinceridade. A vó, Dona Talita, matava as galinhas torcendo o pescoço e afogando-as numa bacia, depenava-as, fervia-as, servia-as com um molho vermelho gorduroso que me repugnava profundamente. Senti meu primeiro baque do real quando vi com a auréola azul no olho parado e morto, o bico semi aberto e o relevo dos poros da galinha que seria comida. Os adultos bebiam e dançavam algo como vanerão. Achava aquilo de uma vulgaridade tamanha que me constrangia estar ali. Pensava na sorte/azar de ali ter caído e me tornado. Um tornado.

(continua)

Da raiva

Licença-divórcio
e eu me entupo de texto

Era raiva. Gana irresistível de difamá-lo. Desejava com força que a vida dele fosse miserável e só sem mim. Que nas noites a lembrança da minha imagem o torturasse de saudades, de tesão, de arrependimento. E só por isso sabia que ainda o amava.

Argumentos, eu me armava deles para explicar os benefícios da separação. Achava que assim organizaria meu mundo. Achava que os argumentos polidos e coesos criariam verdade dentro de mim e que essa verdade estancaria aquele escorredouro de sangue poluído, aquela cólera.

Que engano. Cansei pessoas, amarguei em estagnação e na confusão das noites, dos vinhos, dos outros.
E tudo porque aquele tolo não pediu pra voltar.

Nos carros, nos parques, nos restaurantes, agora aquela forte impressão de que todos eram felizes, menos eu.

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(continua)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Trecho Rasante

O Rasante da Mangava


Ela se foi sem querer ir. Sem nenhuma convicção, disfarçando firmeza, ralhou consigo mesma e seguiu. Era necessário abandonar de vez o mal estar e as reclamações que aquele contexto trazia para si. 

A amenidade do sol e do vento a convocavam para a languidez e a indiferença. Mas o coração insistia em produzir aquela substância, aquele fluido que não se detecta em ecografias, o fluido que pesa e amarga o espaço entre seus seios. "Recomponha-se", pensava. Precisava falar, expor toda aquela crueldade sofrida. Era dor imerecida que precisava sangrar.

Mas calma, não há dor que perdure eternamente. Aquele corpo ainda jovem e ávido de vida era sábio e sabia que não demoraria para voltar a dançar. Quando a psique não dá conta e hesita, sobra a vantagem de se saber corpo que simplesmente vai.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Resgate


Quando eu era pequena as joaninhas sempre pousavam em mim; eu descolava os caracóis no muro do jardim, e alguns eu esmagava, pra ouvir a casquinha quebrando.

Colhia os tatus-bola embaixo das pedras e tentava abrir os mais resistentes.

Consolava meus irmãos quando eles caiam ou sangravam, e me sentia forte e adulta relatando meus tombos anteriores. Eles riam.  

E ri como nunca quando descobri a magia da queima de bombril. A partir de então, passei a esperar inquieta pelas noites. Até me acostumar, e perceber que é preciso não desgastar tanto as surpresas.  

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

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Dou o céu, e tiro o chão.
Aprenda a voar.

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