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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Da raiva

Licença-divórcio
e eu me entupo de texto

Era raiva. Gana irresistível de difamá-lo. Desejava com força que a vida dele fosse miserável e só sem mim. Que nas noites a lembrança da minha imagem o torturasse de saudades, de tesão, de arrependimento. E só por isso sabia que ainda o amava.

Argumentos, eu me armava deles para explicar os benefícios da separação. Achava que assim organizaria meu mundo. Achava que os argumentos polidos e coesos criariam verdade dentro de mim e que essa verdade estancaria aquele escorredouro de sangue poluído, aquela cólera.

Que engano. Cansei pessoas, amarguei em estagnação e na confusão das noites, dos vinhos, dos outros.
E tudo porque aquele tolo não pediu pra voltar.

Nos carros, nos parques, nos restaurantes, agora aquela forte impressão de que todos eram felizes, menos eu.

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(continua)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Da Ternura

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Era uma daquelas tardes de frio e sol em Curitiba que compramos aquelas balinhas que estouram na boca. Adiamos o cinema para sentar num parque e amolecer ao sol. Nesse dia ele me chamou: "amor", sorrindo. Em consenso o beijei devagar, segurando seu rosto. O estado da paixão, o presente e o devir. Era como ter certeza de uma surpresa boa todos os dias; andava por aí como se tivesse um buquê de satisfação no peito.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Verônica

Aconteceu em 2009. Ele estava preso há um ano por tráfico quando fui nomeada sua defensora. Sérgio havia vendido a quem havia pedido um pouco mais que 20 gramas da popular e tragada marijuana.

Sérgio era magro a ponto de ser indefeso, bonito, timidamente risonho e de afeto fácil. Nas consultas no parlatório limpo e estéril da Penitenciária, eu lia para ele os bilhetes de amor escritos por Verônica. Com os olhos plenos de lágrimas me implorava a liberdade. Para meu pesar, eu só trazia as más notícias vindas de Brasília.

Verônica passou a visitar-me semanalmente. As cartas - ela insistia - embora não pudessem ficar em posse do amado, deveriam ser lidas, relidas e mostradas - afinal, o capricho da caligrafia e das cores era um mimo possível. "Doutora, quando chegar nessa parte, fale um pouquinho mais alto." E eu obedecia as entonações recomendadas por Verônica.

Na última audiência, enquanto o assessor alimentava a impressora com os papéis oficiais, enquanto o juiz se ria discretamente com a bela promotora, Verônica - no alto de seu impulso floral de 17 anos - levantou-se e rapidamente beijou a testa frisada de Sérgio. Eles sorriram. Eu sorri.

O juiz advertiu-a duramente e expulsou-a da sala de audiência.

O poder não gosta do amor, já disse Warat.

O poder não gosta do amor, pude confirmar.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

passa

(Essa, do Caio Fernando Abreu, eu colei para Ela. Ela que estava em surtíssimo. 
Logo após eu soube: surtiu. Que bom, esse é daqueles pra se guardar no bolso.)  

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez".

Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.

Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência".

E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.

Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar.

Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.

Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.

Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...

(Caio Fernando Abreu em Metâmeros)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sinto muito

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Sinto muito pelo desamor, sinto muito pela perda, pelo descuido e descaso, sinto muito.
Sinto muito e sinto tanto tanto que já não sinto nada.

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