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sexta-feira, 26 de março de 2010

Desejo e Demissão Subjetiva

Sonhos: neles, notícias não-literais do desejo.

O desejo é um conceito difícil em psicanálise; difícil a apreensão teórica, difícil saber sobre ele e suas repercussões na vida já que ele não se confunde com a vontade, que tem nome. O desejo é inconsciente, escorrega, desliza para outros objetos e representações, e pode estar por trás inclusive dos nossos fracassos.

Aprendemos a desejar com o Outro, a partir da falta - esse a quem direcionamos silentes a pergunta: que queres de mim? Ou que faço para desejar-me? O Outro, segundo Lacan, é "aquele que perante nós, nos aceita ou nos rechaça."

A neurose é essa sujeição: a tentativa de ser o objeto total de desejo do Outro, ser aceito. É a criança - cuja identidade está depositada no olhar materno - que almeja ser o único interesse da mãe, completar sua falta. Por isso, é necessário reaprender a desejar (o que também significa aprender a saber de si, dispensando o saber alheio), a fim de romper com a trama de desígnios desse Outro a quem servimos, mas que já não existe. Esse Outro que é um fato da linguagem.

Sei pouco (e esse pouco, creiam, salva) sobre minha própria condição desejante, por isso certas leituras são um alento e também um desconcerto dado que me aproximam de alguma idéia do percurso do desejo.

Em tempos de Prato Feito imperativo de desejo (consumo), difícil é romper com a servidão imposta pela publicidade e outras mídias - get a rich or die tryin´, repetem - e responsabilizar-se pelo inédito que somos. Inventar, criar, arriscar e conseguir satisfação é trabalhoso em uma cultura de fórmula massificada.

Esse é um daqueles trechos especiais que gostaria de compartilhar com vocês, do livro O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões, da psicanalista Maria Rita Kehl:

"No que toca à demissão subjetiva, o que varia de um sujeito para outro não é o maior ou menor 'conhecimento' do objeto do desejo, mas o compromisso - ou o descompromisso - com a condição desejante, através das escolhas de vida que representam o que mais importa e interessa a cada sujeito. A via do compromisso com o desejo é a única via não-alienada de produção de sentidos para a vida, ou seja, a única escolha que não serve a um suposto desígnio do Outro. O desejo, em Lacan, é a 'metonímia do nosso ser'. Na impossibilidade de reencontro com a totalidade do SER, para sempre perdido, as moções do desejo representam o ser a partir de pequenos fragmentos, de frações metonímicas, como as ruínas das grandes edificações desaparecidas permitem deduzir que um dia elas estiveram inteiras, ali. Ceder dessa dimensão equivale a desistir de ser."

O que entendo dessa leitura: um convite à felicidade, à satisfação, o cumprimento do desejo, que está em significações parciais. Um convite ao risco, à invenção, pois a totalidade foi perdida, é angustiante e pode ser bom, assim temos alguma razão (a falta) para levantar cada dia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sombra floreada

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Grata pela desejável solidão.
Pela sombra floreada nas cortinas que se inflam exibidas.
Grata a Leonardo Cohen e sua voz de veludo que agora me aninha.
Pela beleza, por toda ela que me cerca, sou agradecida.
Tão belo, e de tão belo é delicadamente dolorido
Porque é finito.
O sono logo vem
E o dia se avizinha
Sem promessas dessa vez.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

No confronto, alguma verdade

Tenho estado verídica, Verônica.

Ainda na faculdade tentei um estágio no Departamento Penitenciário. Não consegui, mas meu pai quase enfartou.
O diálogo daquela noite é especial. 
Por aqueles dias, meu pai havia insistido diariamente que eu fosse até a agência X do banco Y falar com o gerente Z, pois lá haveria uma oportunidade certa de estágio para mim. O meu descaso com a oferta e os comentários sobre o DEPEN (Dpto Penitenciário), deixaram meu pai confuso. 
Preocupado, quase insultado, ele me questionou com alguma severidade:
- O gerente só tá esperando sua 'entrevista'. Não entendo, juro que não entendo! Tá louca? Prefere trabalhar em presídio do que no Banco X?
Alguma verdade íntima me surgiu naquele instante, e eu não pude negá-la para o conforto de meu querido pai. Só pude levantar os olhos e responder:

- Prefiro, pai. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

3 am


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Não é insônia, é apreço pela sombra, pelas gentes noturnas. A madrugada é tão cheia de neblina e ideias. O dia nos prédios tem uma claridade que vulgariza os ternos os burocratas os argumentos. Tardes de fatos, clientes e som ambiente.

Enfada.


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mas não é só

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É entusiasmo também, é delícia em ser si mesma. Sabor de ser mulher fresca em flor. Tanto momento-coisa por aí. É quase verão.


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