Ele me pede uma fórmula para explicar a mulher. Eu tento.
Penso nas bruxas e nas musas, em Sapho, na maternidade e na subversiva ao olhar masculino, esse olhar que nos olha e nos cansa, cobra, entedia. Historicamente, a doméstica interditada à fala, à vida pública; cuidadora; resignada; limpadora de excrementos. Por aqui somos a primeira ou segunda geração de mulheres com direito à vida pública. Aprendendo a desejar um algo além.
Penso também na bela Vênus das Peles, que na verdade era idealizada, era de pedra. O amor romântico mata a mulher, nega sua imperfeição. O sonho de muitos é estancá-la, esculpi-la, matá-la num verso qualquer. Os radicais islâmicos são mais práticos: eles nos velam o corpo sede de sedes, mal-estar.
Álvares de Azevedo, nosso romântico maldito, em 1852 escreveu uma peça: Macário. Veja esse trecho, me lembra Sacher Masoch e sua Wanda:
MACÁRIO
Quem era essa mulher?
SATAN
Era um anjo. Há cinco mil anos que ela tem o corpo da mulher e o anátema de uma virgindade eterna. Tem todas as sedes, todos os apetites lascivos, mas não pode amar. Todos aqueles em que ela toca se gelam. Repousou o seu seio, roçou suas faces em muitas virgens e prostitutas, em muitos velhos e crianças—bateu a todas as portas da criação, estendeu-se em todos os leitos e com ela o silêncio... Essa estátua ambulante é quem murcha as flores, quem desfolha o outono, quem amortalha as esperanças.
Essa mesma, a que não goza?
Discutíamos entre mulheres esses dias:
Por que algumas fãs berram com tanta força para seus ídolos pop-rock-stars?
Por que o clube das mulheres se tornou algo caricato, com mulheres enlouquecidas, famintas, estridentes, desvairadas?
Talvez a falta de costume em ver. Falta de experiência em ter/apreciar um objeto de prazer. Corpo feminino: sede de sedes, vontades, investidas, restrições, punições, percorrido desde muito cedo por preceitos religiosos, jurídicos e olhares tantos; seio da promessa prometida; corpo-lugar de formas - desloca-se dessa condição sofrida de objeto calado para uma posição outra. Privilégio da dúvida. Precisamos desmentir Maria.