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quarta-feira, 30 de junho de 2010

razão insensível


"Há falta de oxigênio e sol
dentro do mundo jurídico.
O direito não amanhece.
Não chove.
Dentro do direito não transitam nuvens
e nem sopram ventos.
As entidades do mundo jurídico não têm carne
e nem temperatura.
Jamais foi escutado canto de pássaro
dentro do Código Florestal
ou vislumbrado peixe no Código das Águas.
Da lei brotam artigos, parágrafos, alíneas, remissões.
Sequer uma flor ou ramo verde.
A vida do animal humano é muito curta
e eu só tenho uma.
Entre o direito e a abóbora
eu optei pela abóbora."

- Alfredo Augusto Becker, in "Carnaval Tributário"

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Verônica

Aconteceu em 2009. Ele estava preso há um ano por tráfico quando fui nomeada sua defensora. Sérgio havia vendido a quem havia pedido um pouco mais que 20 gramas da popular e tragada marijuana.

Sérgio era magro a ponto de ser indefeso, bonito, timidamente risonho e de afeto fácil. Nas consultas no parlatório limpo e estéril da Penitenciária, eu lia para ele os bilhetes de amor escritos por Verônica. Com os olhos plenos de lágrimas me implorava a liberdade. Para meu pesar, eu só trazia as más notícias vindas de Brasília.

Verônica passou a visitar-me semanalmente. As cartas - ela insistia - embora não pudessem ficar em posse do amado, deveriam ser lidas, relidas e mostradas - afinal, o capricho da caligrafia e das cores era um mimo possível. "Doutora, quando chegar nessa parte, fale um pouquinho mais alto." E eu obedecia as entonações recomendadas por Verônica.

Na última audiência, enquanto o assessor alimentava a impressora com os papéis oficiais, enquanto o juiz se ria discretamente com a bela promotora, Verônica - no alto de seu impulso floral de 17 anos - levantou-se e rapidamente beijou a testa frisada de Sérgio. Eles sorriram. Eu sorri.

O juiz advertiu-a duramente e expulsou-a da sala de audiência.

O poder não gosta do amor, já disse Warat.

O poder não gosta do amor, pude confirmar.