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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Pela legalização do Aborto - Parte II, A fecundação

Somos resultado de uma fecundação bem sucedida. Enlace de gametas. Bio-encontro. Sexo, puro sexo na grande maioria das vezes (não olvidemos os artifícios das produções laboratoriais). Poderíamos ser melhores, poderíamos ser piores? Não. Só poderíamos simplesmente não-ser.

Considerando que os espermatozóides se renovam a cada 72 horas no corpo masculino, ou em menos tempo em caso de ejaculação, se seu pai tivesse se masturbado uma vez a mais ou uma vez a menos, você já não seria. Caso sua mãe sofresse de um leve e usual desequilíbrio hormonal, você também não seria. Em seu lugar poderia ter sido outro, mais bonito, mais esperto, ou menos, ou nada.
 
Sacralizar a fecundação que se deu à revelia do desejo? Proteger esse emaranhado de células em detrimento do projeto de vida do casal?

A questão do aborto abala nossas camuflagens egóicas. Desmistifica a vida: não somos especiais enquanto embriões. Somos especiais quando investidos de libido, desejo, discurso, narrativa.

Pela legalização do Aborto - Parte I, A Missão

25 gramas de artemísia (losna) ou 20 gramas de arruda em um litro de água. Tome por 1 ou 2 dias até resultar. Caso contrário, aumente a dose. RESULTA SEMPRE. (Avisa o blog português sobre remédios caseiros.)

São 4 citotecs, dois sublinguais e dois intravaginais. Use um aplicador. Tome paracetamol. Alguns poucos dias de dor. O resto deles de alívio. Cuidado com os picaretas da internet. Vá até as protistutas, são um canal seguro. (Ponderam outros cantos no ciberespaço.)

A clínica do Dr. L. fica em São Paulo, o telefone é de um hospital. Ele atende muito calmo. Diz que citotec é perigoso, pode ser fatal. Diz que tem horário em dois dias, e custa R$ 3.500 reais.

Dr. L é cínico e ganha muito às expensas do desespero de meninas e mulheres em situação de risco. Segundo a Federação Nacional do Aborto nos Estados Unidos o método mais seguro, menos invasivo e traumático, que pode ser administrado caseiramente é o misoprostol (citotec) ou mifepristona. Em boa parte da Europa, o Estado distribui gratuitamente o remédio após uma entrevista.

A criminalização do aborto perdura em boa parte da América Latina, África, países islâmicos e alguns asiáticos. Países colonizados, alguns muito machistas, onde a mulher ainda é objeto, e não sujeito de direitos.

Maternidade requer desejo. Um novo sujeito necessita de investimento amoroso e obviamente, financeiro. A informação sobre os direitos reprodutivos é um direito básico do ser humano. E é por isso que lutamos hoje e sempre: informação, privacidade, auto-determinação e autonomia sobre nossos corpos e projetos de vida.

#proescolha. Pelo direito de decidir.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Entre os tantos

Ouvi dizer que literatura implica em embaraço.

Janaína, nome modificado.
Idade: 27 anos.
Interesses: projeto de vida.

Janaína anuncia ao telefone: "estou com o maior problema da minha vida". Não entendi, temi por ela. "Venha até o meu escritório, Jana." Naquela época eu havia começado uma sociedade em uma casa simpática e acolhedora no Alto da XV em Curitiba.

Ela chegou pouco depois da hora do almoço. Era verão, lembro das cores pálidas do seu vestido quase infantil. Braços nus e bronzeados, blush cor de pêssego, cílios alongados, fones pendurados no decote bem recheado, Janaína não aparentava carregar um grande problema. "Draminha nosso de cada dia, amiga?" "Calma, já conto." Calorosa, carinhosa, cumprimentou meu sócio com beijo, depois abraço, percebi de soslaio o deslumbre dele com o frescor daquela moça desocupada.

Ofereci chá gelado, ela se afogou, tossiu, se recompôs e disse com o olhar ansioso: "Que lindinha tua sala!" "Jana, tô preocupada, diz aí." Em um outro semblante, ela se aproxima e fala baixinho: "Guria, fodeu. Estou grávida de 8 semanas, farei o aborto na quarta (era segunda-feira), e meu ex-namorado pretende me denunciar ainda hoje." Ela retira da bolsa de pano cor-de-rosa uma cartela com 4 comprimidos hexagonais, que diz se tratar do cytotec. Conseguira com um sacoleiro do Paraguai. Estava determinada com ato, mas intimidada com a ameaça de denúncia.

"Ele era bom no sexo, e eu vacilei."

Orientei-a como advogada. Suspirei e sofri como amiga. O ex-namorado não cumpriria a ameaça, ao menos nunca tive notícia de qualquer delegacia.

Na quarta-feira liguei. Maribel estava a postos e me descreveu as condições de Jana: pressão baixa, frio, vômitos, diarréia. "Relaxa, ela diz estar bem e que na internet era isso mesmo que relatavam." Duas horas depois liguei de novo: dores, contrações, cólicas infernais, e agora muito calor. Já havia sangrado. "Ela anda de um lado pro outro, e faz força para descer." Guria forte.

"Dor de parto", Jana ao telefone.
"Buscopan composto, guria", tento ajudar.
"De jeito nenhum, anti-espasmódico anula o efeito."

Ela havia se informado, e eu estava aliviada por isso.

Maribel fala e eu visualizo: de cócoras, vestida apenas por um par de lágrimas, Janaína nos recorda nossa condição inalienável de fêmea em dor. "Já passa, já passa", dizemos nós para nós mesmas. É o nosso consenso.

Na quinta-feira dirigi 120 km em um calor de 40 graus. O litoral paranaense é uma contradição: selvagem, assimétrico, de águas turvas e ondas branquíssimas, mar de solidões, ele não me comove, nem me convoca.

Com uma bata amarela até os joelhos, Jana sorri, me beija e me agradece. "Mas, por quê?" "Por ter se importado, por não ter me julgado." É o pacto da amizade amoral, lembra? E em seguida, sem pudores, Jana me descreve seu horror e alívio com "o embrião branco com um filete desenhado no meio, devia ser a espinha dele..." Acho terrivelmente poético.

"Eu resolvi o maior problema da minha vida." Fomos até o mar, descalças com as mãos dadas. Maribel e eu prometemos segredo. Jana ressalva: "não, coloca no seu blog, muda meu nome, é melhor que saibam assim." Depois que prescrever, Jana. Só depois.

***

Obs.: Aos vocacionados à delação, promotoria e aos demais paladinos do Bem, do Belo, da Virtude e do Justo, aviso: isso é uma tentativa de literatura. Ridículo explicar, mas é preciso.