sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Anotações de um Seminário sobre Psicanálise

Essas são umas anotações de um seminário de psicanálise que acompanhei em 2009 na Associação Psicanalítica de Curitiba. A palestrante se chama Rosa Maria Marini Mariotto. Colo aqui para partilhar com vocês. Tive que reorganizar, completar frases e suprir algumas lacunas. Não todas, porque cobrir tudo é muito.

Obs.: Outro (grande Outro) é diferente de outro (com 'o' minúsculo, que é o semelhante, o outro especular). Essa é uma das "convenções" do discurso psicanalítico.


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Outro - função de miragem na qual o sujeito se reconhece.... como miragem e ficção. Cisão do sujeito. Em torno do qual o sujeito se constitui. Esse outro necessário para constituição do sjto, do seu saber de si. Na criança,  quem oferece as imagens para sua constituição: o outro. Que depois coincide com o Outro. Lugar oferecido a partir das palavras, resta ao sjto se apropriar. Depois ele se retira desse lugar para não ser esse outro. Pólo de identificação - para que o sjto não se misture com esse outro. Nem sempre a mãe encarna a função do grande Outro (função da linguagem). A linguagem antecede o próprio cuidado.

Função da miragem - o outro semelhante, importância - olhar materno para o organismo do bebê. Ela, a mãe, não o vê tal qual um organismo... mas como um representante do seu desejo, portanto o vê em um outro lugar (lugar de falo - objeto a). Olhar da mãe projeta nessa tela uma imagem de filho. A tarefa da criança: tentar corresponder a essa imagem, se apropriando, se identificando a ela - identidade que é outra, não é ela... ela topa corresponder. Um nível de correspondência entre o sujeito e o sujeito ideal. Essa miragem que a mãe localiza (pensa no oasis no deserto - não existe) precisa ser avistada se não a criança permanece na condição de bebê feio, enrugado, gosmento...na condição de um tubinho de carne, tal qual se pode dizer o mero corpo.

Dissemetria entre o filho imaginário e o filho real. Todo objeto obtido nunca é o esperado. A criança e a mãe convivem com essa diferença: aí se dá a cisão. Tal discrepância faz com que a criança, ao se identificar com aquela imagem não seja toda a imagem (do olhar da mãe).

"A psicanálise não é uma egologia" (Lacan, crítica a Klein) - pasteurização da psicanálise pelos pós-freudianos, subversão daquele legado, atribuindo à psicanálise uma terapia do ego. Freud em O Id e o Ego dá uma importância grande ao Ego (a responsabilidade do Ego: intermediação entre mundo externo e interno; lugar da operação do recalque - defesas... localização do ego como reservatório da libido, distribuidor da economia libidinal - atribui ao Ego (cs e ics, instância egóica) importância ainda não antes vista. Diz Freud que a análise só se inicia a partir do Eu.)

Eu (em Freud, o Id e o Ego) - a parte do Id que no contato com a realidade se modificou. "Onde Isso era o Eu deve advir." O Eu é fruto da relação com o outro semelhante, relação imaginária com o outro. Mas não pode ser reduzido apenas a essa miragem ofertada pelo outro. Tem como matéria prima o Id - instância mais inacessível e mais primitiva do sujeito, sede das pulsões. O Eu tem uma comunicação, uma origem, que não tem nada a ver com essa relação identificatória com o outro.

Psicologia do Ego, reforçamento do Eu como sede das defesas. Essa análise se dá no Imaginário, a transferência fica imaginarizada. Preocupação com o analista, modelo de identificação.

Um análise em que se fala pro simbólico - transferência simbolicizada.

O ego para Lacan, é objeto imaginário. Lugar de desconhecimento de si mesmo.

Como o sjto tem notícia de sua pulsão? A partir de suas representações... palavra ou afeto (Freud).
Lacan: pelo significante ou significado.

Identidade de si, esse Eu, é lugar que ao invés de revelar a verdade do sujeito, mascara essa verdade. O lugar da verdade do sjto está alhures, em outro lugar.

O que se separa?

No campo do real - organismo
Imaginário - corpo.
Simbólico - sujeito.

Uma parte do organismo não é apropriada, nem pelo registro simbólico, nem pelo imaginário. Há algo que marca o sjto que é a inscrição nesse organismo que é o significante. O que é marcado não compreende toda a essência do ser. Esse resto, que escorre, nos coloca sempre nesse movimento de cisão. Real é td aquilo que não cessa de não se inscrever. Simbólico - td aquilo que não cessa de se inscrever.

Desejo é do campo do simbólico, que só se institui com a entrada do sjto no campo da linguagem, isso coloca o sjto em falta.

O simbólico é o que permite a existência do inconsciente.

Sjto se aliena pq não tem alternativa. Fato: bebê, filhote, necessitam ser cuidados. Alienação no outro. Recolhimento - acolhimento impõe ao pequeno um mínimo de alienação - submetido, assujeitado.  
A interpretação que o outro materno faz das demandas desse corpo. Criança modula os choros. Esse vai-e-vém da alienação, sujeito supõe que sobre ele o saber está no outro. Alienação ao desejo do outro.
Separação será vivida, reconhecida, na sua travessia edípica.

Mãe fálica psicótica - a que sabe tudo. "A profissional do desejo" - Jerusalinski.

Desalienação no trabalho psicanalítico. Na sua relação com o imaginário, o sjto não deve estar preso a ele. Separação se dá qdo aquele que encarnou o Grande Outro, desencarne dessa posição - qdo a criança consiga diferenciar.

Psicose - o saber de si tá na mãe.
Psicose paranóica - o saber de si e também o saber sobre o mundo e os outros está nele.


Condições mínimas de subjetivação - recalcar. Oferecer que real, simbólico e imaginário se instalem e sejam reconhecidos.

Cisão subjetiva não está só no sjto a ser criado, mas no sjto que cria. O ics tá na mãe também. Elemento componente da subjetividade: insconsciente insiste. Repetição. E localiza essa noção como insistência da cadeia significante, isso que insiste no sjto, ele não tem alternativa. Qdo o sjto estranha a si mesmo nessa insistência revela algo do inconsciente.

Delírio - apreensão literal de tudo - não tem outro sentido.

O que é realidade é vivida para o sujeito como sempre psíquica. (Freud). Para o sujeito psicótico: realidade externa.
Ele vive do modo que ele apreende isso.
Fantasia neurótica (ser mais amado com servir o Outro).

Fantasia para suportar a vida.

Sjto de delírio: o outro permanece fora. Sofre a partir do outro, de fora.
Neurótico: outro que fala nele. Outro tá dentro. Sofre consigo mesmo.

Diferença entre tomar sujeito como coisa ou como causa. Exige trabalho analítico. Neurótico sempre tá nesse entre-muros. Ser causa de desejo ou coisa para satisfazer o outro.

Como se apropriar do seu desejo? Quem é que sabe qual o desejo do Outro? Ngm sabe, se supõe, do que o Outro precisa, do que o Outro padece. Sobre o desejo do Outro não há saber. Assim, se ocupa do próprio sintoma.

Desejo não tem sentido, a gente constrói o sentido. É metonímico. Quais os objetos que vem a representar aquilo que nele falta. Se ocupar do desejo do Outro é se ocupar de suposições do que falta no Outro.

A repetição é insistência de uma fala, que nos embaraça - movidos por necessidades. Repetição é relativa ao campo simbólico. Emerge no sjto como elementos significantes, simbólicos, que insistem no funcionamento desse sjto.

Matematização da Psicanálise - para que não se pudesse cair na tentação de subverter o sentido.

Freud ajuda o leitor a produzir o sentido. Construtiva. Acompanhamento do raciocínio para o leitor.
Lacan quer destituir o sentido. Aquilo que vc supunha que era não é mais. Se ocupa de desconstruir os conceitos pasteurizados, para que se construa um mais legítimo. Noções extraídas do seu contexto. Trabalho a mais do leitor, do estudante.

Ainda bem que a mãe é carente, pq se ela não carece o sjto não se constitui.

Escuta do próprio significante - tarefa do analista. O sjto tá imerso nos seus significados. Essa escuta literal só se dá no cenário analítico.

O sjto qdo trava o diálogo com outro supõe um entendimento, dois eixos da relação discursiva (X). Relação especular, eixo imaginário entre semelhantes = a e a´.
Toda idéia de que no curso do diálogo há univocidade, é atravessada pelo eixo simbólico - o eixo do equívoco.


Escuta literal é se deixar atravessar pela equivocidade significante - analista: provocador da equivocidade.

Lacan quer combater a idéia de que o analista compreende o discurso do outro. A idéia de permanecer no eixo imaginário, especular.
Tudo se faz para evitar a relação do eu a eu. A miragem imaginária. Tudo é feito para que tudo se apague de maneira dual. Naquele lugar do analista não outro semelhante, não há amor, nem escape. O lugar do analista tá vazio.

A intervenção deixa um furo no discurso, um espanto. O sjto se surpreende em si mesmo em sua certeza egóica.

"O homem é possuído pelo discurso da Lei (da castração) e é em nome desse discurso que ele se castiga, e não cessa de pagar com sua neurose" (Lacan)

Estar submetido a uma lei, interdição de ser ou de ter o objeto. A palavra mata a coisa.

Psicanálise - a ciência da linguagem habitada pelo sujeito. Para Freud, o homem é sjto preso e torturado pela linguagem. Essa relação do sjto com a linguagem que a psicanálise evidencia e busca tratar.


Ler Wittgenstein. ***

Psicanálise não é uma tradução.... pq o analista não sabe que pode fazer.

Ler: O Discurso de Roma e A instância da Letra.

11 comentários:

Cristiano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cristiano disse...

Acredito que esse "descolar" do sujeito em relação ao discurso do outro (ou Outro), aos desejos deste Outro, é tarefa complicada. Seria o neurótico um sofredor por viver como objeto e, para isso, ter que constantemente anular suas pulsões em nome de algo no qual ele não se reconhece? De qualquer forma, como eu disse, conheço muito pouco de psicanálise, portanto, desconsidere eventuais erros e leia esse comentário com olhos de tia do jardim =D.
A propósito, ler Wittgenstein? Qual livro? Você já leu Mikhail Bakthin? Se gosta de teoria da linguagem, irá gostar.

Cristiano disse...

Ah, o título é Marxismo e Filosofia da Linguagem.

Felipe disse...

Que não é do Bakhtin, é do Voloshinov. =)

Cristiano disse...

Já disse, há controvérsias! Eu, particularmente, não acredito em boatos...mentira, acredito sim.

Aline disse...

Oba! Uma discórdia no meu blog!

Aline disse...

A parte do "Ler Wittgenstein" foi uma orientação da palestrante. Não atendida ainda. Leio uns recortes ali, acolá, aqueles aforismos do Tratado.

Ele não gostava de psicanálise, achava pura sugestão. Ou entendi errado?

Cristiano disse...

Na verdade, eu não sei. Li poucas páginas do Investigaçõs Filosóficas e, como achei que estava entendendo muito facilmente, resolvi parar de ler (alguma coisa estava errada). O Felipe andou lendo tempos atrás, mas a julgar pelo pouco que sei, acho plausível que ele (Wittgenstein, não o Felipe) tenha rejeitado a psicanálise. Sei, também, que Lacan (considerando sua vertente lacaniana - posso estar errado) tentou se corresponder com Heidegger, mas este nunca lhe deu resposta. Enfim, coisa de filósofo moderno. =)
Quanto à sugestão de ler Wittgenstein, acredito ser bastante producente, já que o foco é a linguagem (como não poderia deixar de ser).
Uma pena eu não poder contribuir mais pra esse post, mas confesso que ando ensaiando há um bom tempo pra começar a estudar psicanálise. Até lá, fico só especulando.

Alex Dias disse...

Wittgenstein, em suas formulações filosóficas, afirma que aquilo sobre o qual não podemos falar, devemos calar. Lacan, em sua subversão característica, na radicalidade da enunciação inconsciente, retifica: "Aquilo sobre o qual não podemos falar, devemos dizer!"

Alex Dias disse...

Foi extraída de Heidegger, a inversão lacaniana que concebe a linguagem não mais como oriunda de uma mestria racional do sujeito, mas descentrando-o, concebe a constituição do sujeito como efeito da linguagem. No texto de 1951 - O Homem como Poeta, Heidegger escreve: "o homem se comporta como se fosse o criador e o mestre da linguagem, enquanto, ao contrário, é ela, a linguagem, que lhe é soberana. No sentido próprio do termo, é a linguagem quem fala. O homem fala apenas na medida em que responde à linguagem, escutando o que ela diz."

Alex Dias disse...

Seu texto está pertinente e esclarecedor... Na tradição elucidativa, embora não haja elucidação para o inconsciente...
Mas numa insistência, são letras elucidativas.
Acho legal essa coisa de escrever um textos partindo de anotações e tópicos do que se está ouvindo de uma palestrante... um "parlêtre".
E como a produção de um sujeito nunca é de citações e apontamentos,tão somente, isso faz de sua composição um corte autêntico de uma autora amadurecida...
Embora também não haja amadurecimento em psicanálise... rs... afinal, a sexualidade que constitui o sujeito, é a sexualidade infantil, é a polimorfia sexual... ou seja, a linguagem de um lugar Outro, desfiladeiro de significantes.